terça-feira, 24 de março de 2015

Se houvesse degraus na terra...

Herberto Hélder de Oliveira (Funchal, São Pedro, 23 de Novembro de 1930 - Cascais, 24 de Março de 2015)

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Hélder.

6 comentários:

  1. Ficamos todos mais pobres.
    Paz à sua alma.
    Um abraço

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  2. Um poema que lembra como a poesia é poderosa.

    Uma linda partilha e homenagem.

    Beijinhos

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  3. Morreu um poeta, fisicamente. A obra está à vista e perdurará.

    Beijinhos.

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  4. Eis aqui um poema de Herberto Helder que nos indica o momento da gestação do poema para saudá-lo no momento em que nos deixa...

    "Um poema cresce inseguramente
    na confusão da carne.
    Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
    talvez como sangue
    ou sombra de sangue pelos canais do ser" (Herberto Helder)

    beijo, Ana!

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    Respostas
    1. Muito bonito! Criar um poema é uma arte!
      Beijos

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